novembro 18, 2014

Prematuros

Ontem foi o dia dos bebés prematuros. Eu fui um. 22 semanas. Há 34 anos. Cresci a ouvir a minha mãe a contar como eu era, sem cabelo, sem unhas, com os olhos fechados, a imagem mais parecida com um coelho esfolado no talho. A minha madrinha que me fez o casaco numa tarde, porque no dia que saí do hospital, 3 meses depois de ter nascido, com 1.320Kg, não tinha roupa que me servisse e à saída da MAC, a primeira loja de brinquedos (lembram-se que antigamente haviam destas lojas? agora passou tudo para grandes espaços e a magia já não existe, pelo menos como me lembro) que encontraram, entraram e foi aí que me compraram a roupa para os meses seguintes.

Ainda temos uma camisola mínima de boneca e o casaco, feito pela minha madrinha, cor-de-rosa, que segundo elas me estava enorme.
Sobrevivi. Com todos os cuidados possiveis que existiam há 34 anos atrás. Segundo os meus pais, os melhores, na MAC. Com pessoas tão cuidadosas, quase tão cuidadosas quanto eles.

Cresci a ouvir a minha mãe dizer que teve medo. Muito medo, quando em Fevereiro lhe disseram que eu ia para casa. Pouco mais de um quilo e agora? "agora você cuidará melhor dela do que nós, será uma mãe só para ela, aqui somos uma para muitos"

Aquecedor ligado 24h, luz de presença e uma gaveta. Sim a minha primeira cama foi uma gaveta, porque a outra, a verdadeira de grades, parecia um oceano.
Não me vestia, apenas fralda e muito amor. Penso que foi assim que sobrevivi.
Um espelho para ver se estava viva. Se embaciava, perfeito. Não chorava a um som audível. Por isso, recorram a métodos simples.

Fui vigiada na Estefânia até fazer 5 anos. Ainda me lembro de algumas consultas e de um brinquedo que a doutora me deu. Assim aqueles em plástico grosso, com argolas para enfiar na cabeça do boneco, lembram-se? Ainda existe, lá para casa dos meus pais.

Único defeito de fabrico a minha visão do lado esquerdo. Só vejo 30%, o músculo não cresceu, não teve tempo. O meu oftalmologista adora e quando lá vou, chama sempre um colega, porque diz, é o típico dos prematuros. Nada a fazer. nem óculos, lentes ou operação. Não desenvolveu. O olho direito compensa, é neutro.

E aqui estou eu, 34 anos depois. Sobrevivi e à conta disto desculpo a minha teimosia. Sou teimosa, venci e aqui estou. E não me passou, a teimosia, a determinação e casmurrice :)

Por isso, a todos os pais de prematuros, o meu especial carinho. Não vos sei dar o devido valor mas, sei que não é tarefa fácil. Confiem em quem cuida deles e na força que os pequeninos têm. Muitos mais que se imagina. E acreditem, sempre. Nunca desistam de acreditar.

6 comentários:

Na Província disse...

Parabéns aos lutadores,porque o são, tenho um sobrinho e a filha de uma amiga prematuros, sei do que fala.
Ontem falei disso no meu cantinho.
Um beijinho

Dear Daisy disse...

Adorei "ouvir" a tua história!!!
Histórias que marcam as nossas vidas, logo que começam... Eu também tenho a minha, não de prematuridade, mas de uma doença à qual sobrevivi.
Somos umas guerreiras!!
Um grande beijinho <3

Arco-Iris e O meu Velho Baú disse...

A Tanita é um bom exemplo que os bebes prematuros são uns heróis, obviamente com a ajuda da medicina.
Conheço alguns casos em que foram uns guerreiros e hoje, são pessoas normalíssimas e saudáveis.
Beijinhos

D. disse...

Tão linda esta tua história.
Fantástico. Uma sobrevivente e linda.
beijinhos

carla cunha disse...

=')

Há passatempo L'Oréal a decorrer em www.carlacunhamakeup.com

Beijinhos

Miú Segunda disse...

Que história incrível a tua, Tanita!
És uma lutadora nata e uma vencedora certificada!
Muitos parabéns e um enorme beijinho